“UBER da saúde”: Sinmed-MG participa de mesa redonda sobre o tema em evento pioneiro da Academia Mineira de Medicina



A Academia Mineira de Medicina promoveu no último dia 23 de agosto, no auditório do CRMMG, debate sobre um tema de grande atualidade: a utilização de aplicativos para Serviços de Atendimento Médico Domiciliar e à Distância. Ou, como vem sendo chamado, o “Uber da Saúde”.

 Para utilizar o serviço, basta o interessado baixar gratuitamente o aplicativo (disponível para Android e IOS), cadastrar-se, encontrar um médico da especialidade e do preço desejados e agendar a consulta, que é feita a domicílio, normalmente no mesmo dia. O sistema resgata a tradição do “médico em casa”. A mesma facilidade de pedir um táxi.

 O presidente do Sinmed-MG, Fernando Mendonça, compôs a mesa juntamente com o presidente do Conselho Regional de Medicina, Fábio Augusto de Castro Guerra. A coordenação ficou a cargo de Emílio Bicalho Epiphanio, médico e assessor jurídico da Academia Mineira de Medicina. Presentes na plateia, o presidente e vice-presidente da AMM, Claúdio Azevedo Salles e José Raimundo da Silva Lippi.

 Iniciando as apresentações, o presidente do CRMMG, Fábio Guerra, informou que os principais aplicativos hoje no mercado brasileiro são o Docpad, o Beep Saúde, e o DocWay, que atende 200 consultas mensais e pretende chegar até o final do ano com 14 mil consultas/mês, segundo declarações do CEO da empresa à revista Exame. Os executivos da Docpad e Beep Saúde têm as mesmas expectativas de crescimento.

 Ao fazer uma avaliação do novo serviço, o presidente do CRMMG disse que os aplicativos já são reconhecidos pelo Conselho como uma nova ferramenta de trabalho médico, “mas o tema ainda precisa ser melhor discutido e normatizado”, alertou.

 Para o conselheiro, “enquanto isso não acontece, os médicos que utilizam os aplicativos devem agir dentro dos mesmos parâmetros éticos aplicados às demais situações de atendimento”. Citou como exemplo a necessidade do atendimento ser presencial, e nunca à distância, e dos médicos terem o devido registro no CRM para exercerem a medicina e a especialidade cadastrada.

 Lembrou que o valor da consulta tem que ser estabelecido pelo próprio médico dentro de parâmetros aceitáveis: “Os aplicativos não podem possibilitar uma concorrência desleal na atenção profissional“. Reforçou que todos os médicos cadastrados no CRM têm direito a se cadastrar, não sendo aceitável que haja uma seleção prévia ou qualquer tipo de restrição.

 Outra preocupação, segundo ele, é a questão da avaliação do profissional: “Ao final da consulta, alguns aplicativos abrem espaço para avaliação da consulta pelo paciente, como se fosse ranquear esses profissionais. Entendemos que esse procedimento não é adequado. Também aqui continuam valendo as normas postas para qualquer outro tipo de atendimento médico”, disse.

 O conselheiro alertou para a necessidade de o serviço ter um coordenador técnico – como em um hospital, dos médicos utilizarem um prontuário e seguirem as recomendações de sigilo e segurança das informações do paciente, entre outros cuidados, para proteger a boa prática da medicina.

 Deteve-se na questão da publicidade indevida, principalmente relacionada às mídias sociais, assunto que tem gerado muitas denúncias no CRMMG: “Temos um manual que trata de todas as questões ligadas à publicidade médica e que continuam valendo para a questão dos aplicativos, além de várias resoluções do CFM sobre o assunto”, afirmou.

 Fábio Guerra finalizou sua apresentação reforçando que a questão dos aplicativos ainda era uma novidade para o Conselho e para os médicos: “Hoje entendemos que esses aplicativos são uma oportunidade de atendimento médico, mas seguindo todas as normas que já estão postas. O CRM vê os aplicativos como uma evolução que pode ser benéfica para a população desde que bem regulamentada e fiscalizada, que é o nosso papel. O Conselho Federal vai ter que se organizar e nos orientar sobre como lidar com essa questão”, avaliou.

 Aplicativos vieram para ficar

 Reiterando as palavras de Fábio Guerra, o diretor-presidente do Sinmed-MG, Fernando Mendonça, contou que o “Uber médico” é desconhecido até mesmo entre os estudantes de Medicina conforme atestou em conversa com acadêmicos. Relatou também que o sindicato, assim como o CRM, não recebeu ainda nenhuma demanda sobre o assunto.

 “A Academia Mineira de Medicina está de parabéns por esse pioneirismo, porque realmente o desconhecimento é geral tanto por parte dos médicos como pelos estudantes. Como entidades temos a responsabilidade de pontuar a questão, que tem muitas vantagens, mas também grandes dúvidas. Hoje a gente tem mais questionamentos que certezas”, afirmou Mendonça.

 Para o diretor-presidente, os aplicativos são uma realidade, já presente em muitos países e que veio para ficar, representando uma nova forma de trabalho médico. Sob esse aspecto, Fernando Mendonça lembrou que com a proliferação das escolas médicas, a crescente terceirização dos serviços do SUS e a crise da saúde suplementar a tendência é que o mercado de trabalho se restrinja.

 “Nesse cenário, a utilização dos aplicativos e essa forma de atendimento que leva o médico à casa do paciente pode representar novas oportunidades para a categoria e para a população”, avaliou

 Abordando o assunto sobre o ponto de vista da população, o diretor-presidente usou como referência reportagens publicadas onde as pessoas se manifestaram favoráveis alegando comodidade pelo atendimento em casa, menores custos e menos tempo de espera em filas ou agendamento de consultas. Mas manifestaram receio de como o sistema vai funcionar e o sigilo médico.

 Mendonça finalizou reforçando a necessidade de garantir que os princípios éticos da medicina sejam cumpridos e qualidade na prestação dos serviços de saúde. “Não há como negar que esses aplicativos estão aí e são o nosso presente. Mas como isso vai acontecer, como será o controle, como vamos saber que um médico está ali conduzindo de maneira ética o atendimento, quem garante que aquele médico é um médico mesmo? Quem será o responsável se as coisas não funcionarem direito?

 O coordenador da mesa, o médico e advogado, Emílio Bicalho Epiphanio, disse que a discussão do tema será proposta na comissão do direito médico, criada agora em agosto na OAB para tratar essa interface entre o direito e a medicina. Reforçou que as entidades médicas precisam desse apoio sob o aspecto jurídico. “Em qualquer situação de atendimento a legalidade e a ética precisam andar juntas sempre”.

 Ao final do encontro, o psiquiatra José Raimundo da Silva Lippi, vice-presidente da Academia Mineira de Medicina, afirmou: “Estou certo de que a tecnologia vai nos trazer benefícios extraordinários. Temos que nos preparar para as mudanças que virão em benefício de nós, médicos, e dos nossos clientes. A academia tem esse papel de trazer temas novos. Essa foi uma primeira discussão de um tema que deverá voltar muitas vezes”.

 

 

Regina Perillo