No Hospital Regional de Betim, cidadãos são tratados como lixo, diz médico

Médicos denunciaram, nesta semana, que a situação do Hospital Regional, que atende a Betim e a várias cidades da região metropolitana, é de calamidade pública. Para o diretor do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed-MG), Paulo Marra, "os cidadãos (pacientes) estão sendo tratados como lixo".

O drama vivido por funcionários e pacientes do Hospital Regional, devido à falta de estrutura e de servidores, também foi denunciado por um médico da unidade. Através de um e-mail encaminhado ao O Tempo Betim, ele, que será identificado aqui apenas como R.P.S, faz graves denúncias sobre a unidade.

No e-mail, o funcionário enumera problemas crônicos, que foram constatados pela reportagem, entre eles a falta de vagas no Centro de Tratamento Intensivo (CTI), o que compromete a assistência aos pacientes. "Vários deles, que deveriam estar no CTI, estão na sala da clínica médica, entubados".

Nesse caso, segundo o funcionário, o paciente necessita de um ambiente asséptico para evitar contaminações. Mas, sem esse cuidado, muitos acabam contraindo infecções hospitalares. "Tem pacientes com bactérias multirresistentes que ficam em quartos com os demais. Já foram feitas denúncias à Vigilância Sanitária e à Promotoria Pública, mas nada de concreto aconteceu", enfatiza.

As dificuldades para atender aos pacientes são potencializadas pela falta de médicos plantonistas fixos. Por causa disso, muitos profissionais sem experiência, ao terem o primeiro contato com o paciente, emitem "prescrições caóticas".

Segundo o médico, muitos banheiros estão sem luz, sem corrimãos para os pacientes se apoiarem e apresentam vazamentos constantes ou entupimentos. "A limpeza deixa a desejar, e os riscos de infecções são iminentes. A cada dia, ficamos mais desestimulados. Eu e meus colegas estamos à espera de um milagre".

Enquanto o milagre não aparece, R.P.S condena a falta de oxigênio no hospital. "A fonte é só para uma cabeceira. Então, temos que fazer gambiarras para atender ao paciente do lado", explicou. Segundo ele, faltam ainda lençóis, fraldas, respiradores e materiais básicos, como micronebulizadores e vidro de aspiração de parede. "Às vezes, temos que passar água e usar o mesmo aparelho em pacientes que se agravam", disse.

Em função da denúncia, o diretor do Sinmed-MG, Paulo Marra, informou que, nos próximos dias, uma nova assembleia deve ser agendada para discutir o assunto. "A situação é grave porque o Regional é uma unidade de referência que atende a Betim e a diversas cidades da região. Por isso, desde o ano passado, temos feito reuniões para discutir os problemas".

Marra ainda acrescentou: "A prefeitura está desrespeitando não só a lei, mas os cidadãos, que são tratados como lixo. A administração não valoriza essas vidas, o setor vive uma calamidade pública".

 Desumano

Aos 66 anos, quem vive de perto os problemas da precariedade da unidade é a dona de casa Maria das Graças Azevedo. Diagnosticada com cinco hérnias no abdômen, ela ficou internada dois meses no hospital à espera de uma cirurgia, porém, devido à ausência de um tomógrafo que suportasse o seu peso - 118 quilos - para exames mais detalhados, ela não pôde ser operada.

Desde o dia 20 de junho, ela recebeu alta e está sob os cuidados de uma amiga. "Por duas vezes, internada no hospital, eu fiz regime para ser operada. Mas eles me levavam para o bloco cirúrgico e desistiam da cirurgia. Como pode um hospital que se diz referência no país não ter um tomógrafo?".

Com fortes dores por todo o corpo, Maria das Graças hoje pouco se locomove e toma, diariamente, 22 comprimidos para dor e controle da pressão. "Preciso de uma cirurgia, mas não quero voltar para lá. Fui muito maltratada".

 

Resposta

A assessoria da prefeitura nega a falta de materiais e afirma que o déficit de médicos será sanado com a convocação dos aprovados no último concurso público. Sobre Maria das Graças, eles esclarecem que não existe tomógrafo que comporte a paciente.

 

 

Dayse Resende