Pesquisa inédita mostra que 19 hospitais desativaram os serviços de pediatria em BH em 4 anos

Ryan Gabriel, de 4 anos, tem plano de saúde, mas o tratamento médico dele é pelo Sistema Único de Saúde (SUS). "Para marcar consulta com um pediatra, só para daqui a três meses. Então, mesmo com plano, paguei uma consulta particular, que também não valeu a pena porque o médico não conseguiu descobrir o que ele tinha", diz a mãe Vera Lúcia Pereira. Sem pediatra, ou sem solução, o jeito foi pedir socorro ao Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que neste ano passou a atender 100% pelo SUS.

O caso se repete com outras famílias que também podem arcar com o serviço médico mas acabam recorrendo ao atendimento público. E não é para menos. Segundo levantamento da Sociedade Mineira de Pediatria (SMP), 19 hospitais privados e públicos desativaram - total ou parcialmente - os serviços de pediatria nos últimos quatro anos em BH. Os públicos são: Alberto Cavalcanti, Júlia Kubstichek, Hospital e Maternidade Odete Valadares e Hospital Universitário São José. E os privados: Biocor, Dom Bosco, Evangélico, Felício Rocho, Lifecenter, Luxemburgo, Promater, René Guimarães, Santa Helena, Santa Lúcia, Santa Rita, Santa Terezinha, São Domingos, São Francisco e Socor.

"Esse número pode ser multiplicado por cinco ou seis levando em conta as unidades de saúde do interior do estado", calcula o secretário-geral da Sociedade Mineira de Pediatria (SMP), Fernando Luiz de Mendonça.

Com atendimento particular limitado, o Sistema Único de Saúde passa a receber quem tem plano de saúde ou condições de pagar uma consulta. O médico residente em gastroenterologia pediátrica José Andrade Franco Neto, além de trabalhar no SUS, também presta serviço em dois hospitais particulares. "Não adianta ter dinheiro. O problema é a disponibilidade do serviço pediátrico", diz. Ele conta um caso que exemplifica bem a crise da pediatria na capital: "Se um menino tem torção testicular não adianta procurar um consultório particular. Ele tem seis horas para fazer a cirurgia e evitar complicações. Então, já tive de orientar uma família a deixar o hospital particular e correr ao João XXIII. O que ocorre hoje é esse caminho inverso: o particular indicando o público", afirma.

O médico especialista ganha, segundo Franco Neto, cerca de R$ 30 por "ficha" atendida na rede privada. Para compensar o preço baixo, é preciso "fazer volume". Uma consulta de 15 minutos, no entanto, pode não resolver o problema, como no caso no menino Ryan. Além disso, por esse modelo, o médico deixa de ter benefícios, como férias, 13º salário e aposentadoria. E, mesmo que se dedique por completo, a infraestrutura do hospital não ajuda, pois como a criança não dá lucro não é prioridade da administração."

Sem retorno

Reginaldo de Araújo, presidente da Associação dos Hospitais de Minas Gerais (AHMG), que representa cerca de 300 dos 700 estabelecimentos no estado, entre públicos e privados, diz que o desgaste na pediatria é tendência até que o modelo de remuneração seja revisto. Em outras palavras, chegar a uma forma de criança encher os cofres do hospital. "O problema é dinheiro nos dois casos. No privado, a venda de produtos médicos para criança não dá retorno. É difícil a venda de uma prótese, por exemplo. No público, pode até ter plenas condições em ofertar o serviço, mas se a vaga não dá boas condições ao médico, ela não será preenchida", explicou.

O secretário-geral da SMP reitera as razões pelas quais os serviços públicos e privados de pediatria vêm sendo fechados. "Manter um consultório particular exige um alto investimento e uma manutenção muita cara. A consulta é muito mal remunerada e os frequentes retornos não são pagos. As instituições hospitalares argumentam que é necessário dar lucro. Como a pediatria se baseia na consulta médica, ela não gera muitos exames ou internações caras e com isso não agrega um valor financeiro imediato", avalia.

Qualidade

Fernando Luiz de Mendonça tem a receita para combater o caos, ou pelo menos amenizá-lo: "No setor público, o concurso ou um plano de carreira ou uma remuneração justa, associada ao controle social, poderia garantir qualidade a todos. Na saúde suplementar, valorização dos bons resultados, associada a um preço justo por consulta elevaria o padrão do setor", afirmou.

É isso o que espera Luciléia Pereira, mãe de Riquelme Lucas, de dois meses, que nasceu com o pezinho virado. "Ele deveria ter sido atendido no Sofia Feldman, onde foi o parto, mas, como não havia pediatra na maternidade quando saí, me mandaram procurar um posto de saúde, que depois me mandou para o Hospital São José. Já são três semanas tentando ser atendida e, por isso, temo que o atraso possa ter comprometido a correção", reclama.

 

 

Paola Carvalho