Fulano, Ciclano e Beltrano: a saga do acesso e das cascatas iatrogênicas

*Dr. Artur Oliveira - Médico da Equipe Laranja do Centro de Saúde Jardim Montanhês - BH/MG; Médico de Família e Comunidade pela SBMFC;Especialista em Saúde da Família pela UFMG; Presidente da AMMFC 2011-2013 ;Membro do Conselho Diretor do SinMed-MG 2010-2013

 

Fulano, Ciclano e Beltrano são irmãos. Decidiram ir ao Centro de Saúde Blábláblá. Viram na televisão uma atriz dizendo que deveriam ir à unidade básica caso tivessem qualquer problema de saúde e, como a atriz era muito bonitinha, resolveram ir.

Fulano é hipertenso.

Ciclano estava com uma dor no pé.

Beltrano queria fazer uma "rotina geral".

Chegando na unidade, souberam que os paciente passavam por uma tal de triagem manchester. Não sabiam o que era, mas pediram ajuda à moça do "Posso Ajudar?".
Como Fulano era hipertenso, foi orientado e marcar uma consulta. Beltrano também, já que queria fazer exames de rotina. Ciclano foi orientado a passar pela triagem.

Ao tentar marcar a consulta, Fulano soube que só tinha vaga para dali a dois meses, mas não se aborreceu. Estava já há quase 6 meses sem usar seus medicamentos e acreditava que mais dois meses não fariam diferença.

Beltrano, por sua vez, se aborreceu muito. Só existiam vagas para quem fosse hipertenso, diabético, gestante, asmático ou criança para acompanhamento e mulher para fazer prevenção. Para o caso dele eram poucas e não havia vaga até para dali uns 6 meses. Disseram que ele poderia participar "do grupo". Perguntando o que era disseram que era uma reunião onde todo mundo falava de seus problemas e Beltrano, horrorizado sem entender como funcionava (embora algumas pessoas próximas já tivessem lhe dito que a experiência era muito boa), descobriu que, caso estivesse "passando mal", o médico teria de lhe atender no mesmo dia. Assim, lembrou-se que sentira certa dor no peito naquela manhã e, avisando isso aos funcionários da unidade de saúde, foi orientado a aguardar pela triagem.

Ciclano foi avaliado pela Enfermeira e, em menos de 2 minutos, a mesma lhe garantiu que seria avaliado pelo médico. Espantou-se com a eficiência, mas não tanto quando percebeu que teria de esperar muito para o médico poder atendê-lo. A dor era grande, mas pareciam existir casos mais urgentes para serem atendidos.

Beltrano também foi avaliado pela Enfermeira. Informando que sentia dor torácica insuportável (percebeu logo que o segredo era dizer que a dor era insuportável), foi sendo levado imediatamente para a sala do médico, passando por Ciclano, que aguardava inconsolável com sua dor no pé. Na porta da sala do médico, mais duas pessoas aguardavame a Enfermeira teve de deixá-lo por ali mesmo, já que parecia estar sendo chamada para avaliar problemas na sala de vacinação.

O Médico, por sua vez, ao abrir a porta para dispensar o paciente deparou-se com Beltrano e mais outras duas pessoas. Uma delas gritava que tinha ficado lá por toda a manhã e exigia receber um atestado liberando-o por todo o dia de trabalho. O Médico disse que não, já que não parecia haver uma doença que justificasse isso, e esta pessoa, chutando a porta, saiu ameaçando levar o caso para o Conselho Local de Saúde. A outra pessoa queria ter sua receita renovada, pois há tempos não vinha à unidade de saúde e não queria ficar sem medicamentos. O Médico orientou que marcasse consulta mas, tanto ela insistiu que não tinha vaga para nova consulta nos próximos dois meses que o Médico acabou fazendo a receita. Então foi a vez de conversar com Beltrano.

Sabendo da queixa de Beltrano, o Médico fez com que entrasse no consultório, deitou-o na maca e, após rápido exame, como Beltrano insistisse que a dor era insuportável (aguardando o melhor momento para pedir que fossem solicitados os exames "de rotina"), pediu que saísse do consultório e que se deitasse em uma maca no corredor. Logo depois Beltrano escutava o Médico pedindo para outro funcionário que chamasse uma ambulância.

Quando chamado para avaliação pelo Médico, foi por um Beltrano pálido e com cara de assustado que Ciclano passou. Na sala onde antes estivera o seu irmão, queixou-se da dor no pé, explicou as características da mesma e há quanto tempo sentia, sempre interrompido por batidas na porta do consultório e pessoas que chamavam o Médico para ver, em caráter de urgência, uma ou outra pessoa. Ao fim das explicações do paciente e com pessoas chamando à porta, o Médico, aparentemente nervoso e cansado, entrega para Ciclano um encaminhamento para o ortopedista e um pedido de radiografia, afirmando que o especialista poderá atendê-lo quando estiver com o exame em mãos, que não há vaga na unidade básica a tempo para ver este tipo de situação.

Saindo do consultório, Ciclano viu que a ambulância já chegava para buscar seu irmão.
Já perto de casa, Fulano conversava com um grupo de amigos. Havia acontecido novo escândalo com compra de ambulâncias no Ministério da Saúde. Entre os amigos ninguém entendia a razão de o Ministro afirmar que precisava de mais verba para a pasta.

Ciclano ao sair da unidade de saúde notou uma família de uma gestante que reclamava da demora do atendimento e da desmarcação da sua consulta. Parece que os médicos estavam ocupados demais atendendo urgências na unidade básica. Mais tarde em casa, escutou no programa de rádio que os médicos e enfermeiros iam entrar em greve na cidade. Algo a ver com melhorias salariais e de condições de trabalho. Um médico, na entrevista, falava da necessidade de reduzir o tamanho da população que ficava sob responsabilidade de cada equipe de trabalho para que conseguissem atender as pessoas a tempo e com qualidade.

Voltando do hospital, a pé, Beltrano olhava vagamente para a receita de antihipertensivo que recebera. Aparentemente chegou no hospital com pressão mais elevada e os profissionais lá não tinham tempo nem leitos para deixá-lo em observação. Orientação que procurasse a unidade básica.

Pelo menos agora que era hipertenso seria prioridade para atendimento. No caminho, passou por uma loja de eletrodomésticos onde aparecia no aparelho de TV uma cerimônia onde o Secretário de Saúde recebia um prêmio. Ao que parece, para sua nova sorte, o município estava cumprindo as metas de atendimento a hipertensos e diabéticos.

Artur Oliveira Mendes