Hospitais param atendimento infantil em BH

 

Em dois anos, 17 instituições particulares fecharam setores especializados em BH, diante da falta de profissionais. Setor público sofre com sobrecarga   Luciane Evans   Vulneráveis a agressões como abuso sexual e violência dentro de casa, as crianças brasileiras estão com mais um direito ameaçado: o de ser atendidas por pediatras. O profissional está, a cada dia, se tornando mais raro nos hospitais de todo o país. Somente em Belo Horizonte e em apenas dois anos, 17 deles fecharam as portas dos setores de pediatria. A crise se reflete no período de mudança de temperatura, em que os pequenos, gripados ou resfriados, lotam os centros de saúde, unidades de pronto atendimento (UPAs) e consultórios, representando uma alta na procura por consultas especializadas de até 40%, como mostrou nessa quarta-feira o Estado de Minas. “A criança hoje, assim como na Idade Média, aparece com um valor secundário na sociedade”, indigna-se o diretor do Departamento Científico da Sociedade Brasileira de Pediatria, José Sabino.   O Hospital Infantil São Camilo, um dos mais requisitados de BH, é um dos que sofrem com a carência de pediatras, mas faz esforço para manter o serviço e entrega aos pais dos pequenos pacientes uma carta de esclarecimento, na qual justifica a demora no atendimento, que nestes meses chega a até uma hora. “Um fator relevante é o desinteresse dos novos médicos pelo exercício da pediatria”, diz o texto, que ressalta o esforço de 61 profissionais que batalham para dar conta do recado. “Chego a atender, nesta época do ano, 20 pacientes por dia”, diz a pediatra Nannda Ferreira de Noronha Carvalho.   Para o diretor do São Camilo, José Guerra, não há hoje entre os universitários tanto interesse pela área. “Os serviços hospitalares privilegiam a alta complexidade, para obter lucro maior. Por essa razão, os estudantes já não optam pela pediatria, que tem no estetoscópio e na conversa excelentes equipamentos. Quem perde com a situação são as crianças, que ficam sem o direito de ser assistidas por pessoas que se prepararam para isso e têm a sensibilidade como grande trunfo”, diz o diretor do São Camilo, José Guerra, que destaca que se houvesse mais 10 pediatras na instituição, a demora no atendimento não existiria.   Se a crise já dá sinais claros, a previsão para o futuro, para o presidente da Sociedade Mineira de Pediatria, Fábio Guerra, não é das melhores. Ele acredita que, a curto prazo, haverá falta absoluta de pediatras em todo o país. “Não sei o que será das nossas crianças sem um especialista que conheça, com sensibilidade, a sua saúde. Se não houver um estímulo a esses profissionais, os pequenos correrão perigo.”   O problema já se reflete na rede pública de saúde. Na semana passada, em sete plantões das UPAs da capital não havia pediatras. “As unidades contam com dois médicos infantis em cada escala. Ou seja, ao longo de sete dias, nas 12 horas, apenas um pediatra não estava presente”, diz o secretário Municipal de Saúde, Marcelo Teixeira. Ele confirma que em março a demanda nas unidades básicas de saúde foi de 75 mil pacientes e acrescenta que, na rede da prefeitura, o déficit é de apenas dois especialistas. “Temos 336 pediatras, sendo 205 nas unidades básicas e 131 nas UPAs. Em todas há um doutor para os pequenos”, garante.   Direitos   O conselheiro-diretor do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, Fernando Luiz de Mendonça, diz que nos últimos anos a crise na pediatria é cada vez mais discutida. “Estamos em um momento de alerta. É um direito da criança e do adolescente ser atendidos por um pediatra. O que está ocorrendo é uma negação a esse direito. Mesmo que se diga que a taxa de natalidade tenha caído, não podemos nos esquecer de que os pequenos estão aí para serem cuidados”, afirma, ressaltando que gestores hospitalares muitas vezes pensam que manter um serviço de leito ou enfermaria infantil não gera lucro. “Mas e a pneumonia? Principalmente nesta época do ano, aumentam os problemas respiratórios, intestinais e tantos outros. Depois dessa crise, vem a catapora. Como será?”, questiona.   De acordo com ele, um dos principais motivos para esse diagnóstico é a baixa remuneração do profissional em hospitais e unidades de saúde, seja pela tabela do SUS, seja pelos planos privados. “Se o especialista pensa em ter um consultório, terá que pagar aluguel, secretária e impostos. Já um plano de saúde paga de R$ 20 a R$ 40 por consulta. Ele vai pensar: ‘Estudei 10 anos para ganhar isso?’.” Mendonça afirma que o efeito está no número de estudantes que deixaram de se especializar na área. “Antigamente, da turma de medicina, entre 10% e 15% dos recém-formados faziam pediatria. Hoje, isso não chega a 2%. Há tempos, um concurso da Fundação Estadual de Minas Gerais (Fhemig) era muito concorrido; no último, precisaram fazer três chamadas para completar as vagas. Que tipo de pediatra está indo para o mercado?”    Fonte: Jornal Estado de Minas – Caderno Gerais – pág 22